reportagem e fotos: João Marcos Veiga/ANPEd

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) recebeu entre os dias 14 e 17 de maio o IV CONEPEd – Congresso de Editores de Periódicos da Educação. As atividades principais ocorreram na capela ecumênica da instituição, com estrutura à altura dos debates, com pesquisadores de diversos programas de pós-graduação do país. O encontro foi promovido pelo Fepae, RBE e pela ANPEd Nacional, com apoio da UERJ.
A abertura foi prestigiada com a presença da reitora Gulnar Azevedo, além de apresentação cultural do coral da universidade. Em sua fala, a presidenta da ANPEd, Miriam Alves, prestou solidariedade à população do Rio Grande do Sul tragicamente atingida pela enchentes que assolam o estado e também aos docentes e servidores federais em greve em IES de todo o país.

Ao longo dos quatro dias de atividades foram realizadas mesas de debate com temáticas desde a divulgação científica, democratização da ciência e avaliação até os impactos da inteligência artificial. Já ao final da tarde os eixos temáticos do encontro receberam apresentações de trabalhos científicos.
Rosimeri Dias (UERJ) e Olivia Medeiros Neta (UFRN), coordenadoras do Fórum de Editores de Periódicos da Educação, consideram que o evento, que chegou a sua quarta edição depois de passar por Florianópolis (SC), Natal (RN) e uma realizada de forma virtual, consolida-se como fonte de pesquisa e informação para a área. Atualmente o Fepae conta com 190 revistas em seu catálogo. Com 87 inscritos, o encontro promoveu sete minicursos, duas conferências, cinco mesas-redondas e 34 propostas aprovadas para os cinco eixos.
O Fórum ainda aprovou, em Assembleia, a proposta de criação de um novo Grupo de Trabalho, sobre Autoavaliação. O GT se somará aos coletivos que já desenvolvem debates e proposições em torno de Ciência Aberta, Indexação, Avaliação, Gestão editorial, Regimento e Ética. O Fepae também desenvolve parcerias de formação e composição de banco de dados com a plataforma Educ@.
Fabiane Rodrigues de Souza (USF), da Revista Horizontes, participou do CONEPEd pela primeira vez. A editora considerou de grande relevância as trocas ocorridas ao longo do evento. “Também gostei muito dos minicursos. Foi um momento de ter um contato com editores e editoras mais experientes e conhecer trajetórias de revistas. Foi um espaço muito rico e pretendo participar dos próximos”, afirma.
Debates
Na mesa “Produção e democratização do conhecimento em Educação: onde e como publicar?”, Elizabeth Macedo (UERJ) lembrou que tornar a divulgação pública faz parte da própria pesquisa, além de defender a criação de uma plataforma na América Latina de citação dos autores, para fortalecimento da região. A mesa ainda teve a presença de Marco André Feldman Schneider (UFF / IBICT), com mediação de Rosimeri de Oliveira Dias (UERJ – Fepae).
Em torno do tema “Comunicação científica e a pós-graduação em Educação”, Terezinha Oliveira (UEM), Jane Paiva (UERJ) e José Rubens Jardilino (UFOP) lembraram a relação histórica e íntima relação entre o que se produz e a necessidade de divulgar resultados, a partir de um compromisso com o desenvolvimento da sociedade, mas sem desconsiderar o contexto atual de esgotamento dos educadores e a necessidade de se pensar novas formas. Em sua fala, Lia Fialho UECE | ABEC) pontuou diferenças entre comunicação e divulgação científica, os diversos canais para tal, a necessidade de renovação do quadro de editores, apoio à democratização da ciência e à ciência aberta e espaços de formação, citando iniciativa da ABEC de fornecimento da praxis editorial. ,
Já na mesa “O impacto social das pesquisas em Educação e o papel dos periódicos”, Suzana Gomes (UFMG | Capes), Luiz Paulo Mercado (UFAL), Décio Gatti Júnior (UFU) e Lucélia Bassalo (UEPA) apontaram como as investigações podem contribuir para gerar igualdade e solucionar problemas – a exemplo do que ocorreu durante a pandemia de Covid 19, -, mas também a necessidade de acesso a trabalhos atuais e antigos, o combate às fakenews e um diálogo para além do fator de impacto, privilegiando tanto o qualitativo quanto o quantitativo.
A mesa “Publicação científica na educação, políticas públicas e avaliação de periódicos” contou com o representante da Educação na Capes, Ângelo Ricardo de Souza (UFPR) e Alice Casimiro Lopes (UERJ | FAPERJ), com mediação de Lilia Colares (UFOPA).
Souza lembrou que a avaliação dos periódicos tem por finalidade a conceituação dos programas, mas que o qualis acaba por ser um indicador amplo, usado mesmo para concursos.
No último quadriênio, segundo informou, foram avaliados 27 mil periódicos de 50 áreas. “Mas apenas 17% da nota do programa depende qualis. Muito pouco para um trabalho enorme, com estratificação excessiva.” Estão previstas mudanças para a avaliação a partir 2029, mesmo com a possibilidade de extinção do qualis. “Ainda assim parece necessário que continuemos avaliando periódicos”, defendendo outras articulações para tal, a partir da ANPEd e entidades como a SBPC.
Alice Casimiro reforçou a necessidade do compromisso pela qualidade na produção dos periódicos e que, apesar dos livros serem muito importantes pra área, estes não substituem os artigos como linguagem internacional de difusão da ciência “Para 2029 podemos e devemos separar a avaliação de livros”, argumentou.
Sonia Siquelis (USF), da Revista Horizontes, acompanhou todos os debates como inscrita no evento e apresentou trabalho nos eixos. Chamou a atenção dela a responsabilidade do editor, para além da avaliação da Capes e da discussão de métricas. “Acho que o Fepae precisa criar mesmo um sistema de avaliação paralelo, para que faça frente a esse modelo que vem sendo instituído pela avaliação dos programas que acaba colocando uma carga muito grande de responsabilidade nos periódicos.”
Na mesa-redonda “Relações sul-sul e a publicação em Educação”, Germana Barata (UNICAMP | ABEC) defendeu o conhecimento como bem público e a troca “para além dos muros”, com outros atores sociais. A partir da apresentação de dados, a pesquisadora expôs o posicionamento do Brasil e a produção da Educação na América Latina, mostrando que as trocas se dão mais com os Estados Unidos e Inglaterra. “A colaboração com a América Latina ainda tímida e as Ciências Humanas é o campo com colaboração mais baixa com a América Latina, com apenas 1,36% dos artigos”, salientou. Por outro lado, lembrou que a troca com a África é expressiva em questões como a de equidade de gênero.
Fabiane Maia (UFAM) lembrou os desafios da pesquisa e das trocas em contextos sociais e geográficos específicos, a exemplo da questão amazônica e das lógicas de silenciamento. Já Inês Barbosa frisou as imposições do capitalismo, colonialismo e patriarcado mesmo no campo da pesquisa e como questões éticas são desconsideradas, por vezes oprimindo o sul nessa exigência de colaboração com o norte. A mediação foi feita por Claudio Pinto Nunes (UESB), integrante da diretoria da ANPEd.
Em conferência final sobre Educação e Inteligência Artificial, Eucidio Pimenta Arruda (UFMG) trouxe apontamentos a partir de pesquisas que acompanha desde 2016 e a revolução recente da AI Generativa, com o Chat GPT e outras ferramentas. “Nossa primeira preocupação é com plágio, mas esta é a menor delas”, citando a divulgação automática, leitura de resenhas e, sobretudo, a produção de artigos a partir da emulação do estilo de escrita do autor.
“A questão para a nossa área não é meramente punir quem utiliza ferramentas de forma antiética, mas pensar nos impactos da IA no nosso campo. Uma vez que as revoluções tecnológicas são inerentes à sociedade, devemos ter uma resistência não como restrição ao uso, mas de repensá-la de forma crítica”, defende.
Na mesma mesa, Edméa Oliveira dos Santos (UFRRJ) recapitulou a revolução da internet nas últimas décadas e como isso mudou radicalmente nossas práticas na docência e pesquisa. “Hoje mais de 50% dos dados e informações que circulam são produzidos e geridos por máquinas. Mas elas também são racistas e misóginas, com viés hegemônico”, aponta.
Sobre a docência, ela reivindica que é preciso trazer os alunos para a conversa, tendo os professores como privilegiados curadores de conteúdo. “Temos que pensar sim como usar a IA para a nossa área, com redes articuladas, políticas públicas e tecnologias próprias, além de levar esse debate para todos os meios, algo que ainda não acontece mesmo em encontros de pesquisa”.










