Debate sobre relações entre pesquisa e educação infantil abre ciclo de eventos do GT 07

Crédito: Marcelo Magalhães/Agência Brasil

As relações entre a pesquisa e a prática cotidiana nas escolas e redes de ensino na educação infantil foi o tema do evento de abertura da terceira edição do “Diálogos com o GT 07”. O evento, transmitido pelo YouTube da ANPEd no dia19/8, foi o primeiro de uma série de cinco até dezembro. Confira a programação completa.

Na mesa de abertura, Marcia Buss Simão (UFSC) e Daniela Guimarães (UFRJ), que integram a coordenação colegiada do GT 07 Educação de Crianças de 0 a 6 Anos, chamaram a atenção para o propósito do evento: fortalecer as conexões e aproximações entre as pesquisas na área e as redes de ensino – algo que já caracteriza a atuação do GT 07.

“O GT 07 conta com muitos integrantes que têm ligação com a educação básica, seja nas pesquisas, seja em atividades nas redes, seja analisando as políticas e pensando temáticas ligadas à infância que extrapolam as instituições”, detalhou Marcia.

Daniela, por sua vez, destacou a diversidade regional nas atividades do GT, inclusive no evento. “Em todas as mesas, há participantes de várias regiões brasileiras, o que é muito enriquecedor”, pontuou.

A vice-presidenta Sul da ANPEd, Angela Coutinho (UFPR), que é integrante do GT 07, reforçou a relevância dessa relação. “Um dos principais objetivos da atual gestão é fortalecer a interlocução com a educação básica. As atividades dos GTs são muito importantes nesse movimento”, destacou ela. Das mais de 600 pessoas inscritas no evento, 60% são profissionais da educação básica.

Interfaces entre pesquisa e educação básica

Nesse sentido, Giselle Vasconcelos, supervisora na rede municipal de Florianópolis (SC), apresentou uma análise de como as pesquisas ajudam a pensar a educação infantil. Para isso, baseou-se em um levantamento no catálogo de teses e dissertações da rede municipal de Florianópolis, que conta com 264 pesquisas, das quais 70 foram realizadas por profissionais da educação infantil do município. O período é de 1991 a 2023.

“Há movimento de práxis por parte dos profissionais da rede, no sentido de olhá-la de fora. São profissionais que estão imersos no cotidiano da rede e sentem a necessidade de sair para teorizar e voltar para um trabalho qualificado”, analisou Giselle.

De acordo com ela, é possível constatar que os resultados dos estudos foram incorporados tanto no trabalho das educadoras e educadores com as crianças, quanto em documentos oficiais. Entre vários exemplos de percepções de profissionais apresentados estão uma visão mais plural de infância, a compreensão da criança a partir do seu próprio desenvolvimento e o estabelecimento de uma relação mais respeitosa com elas.

Giselle também apresentou relatos de profissionais que se mostraram mais identificados com os documentos orientadores da rede, visto que eles são resultado de uma elaboração coletiva que inclui pesquisas.

A pesquisa como fonte de reflexão

A professora Gabriela Scramingnos (UNIRIO) partiu do diálogo com duas pesquisas para mapear indicativos, implicações e reflexões para o cotidiano da educação infantil. São elas: Linguagem e rememoração: crianças, professores e suas histórias (PUC-Rio) e Políticas de avaliação na/da educação infantil: concepções e ações dos sistemas municipais de ensino no estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Para Gabriela, ambas ajudam a olhar para o dia a dia das creches e escolas infantis em aspectos como a visão de cuidado na perspectiva das crianças e os efeitos do “currículo de consumo” para a educação infantil.

A visão de cuidado das crianças, segundo a pesquisa da PUC-Rio,  não necessariamente coincide com a dos adultos. As crianças se apresentam como cuidadoras das crianças menores e se sentem cuidadas, por exemplo, pelas merendeiras durante as refeições – e não quando as professoras penteiam seus cabelos na saída da escola, prática esta entendida pelas docentes como cuidado.

O desafio que se coloca, então, é reconhecer as crianças como informantes de suas experiências de mundo, as quais podem ser pistas para construir uma escola diferente da atual.

A pesquisa da UNIRIO mostra que o “currículo de consumo”, composto por materiais prontos e geralmente comercializados por sistemas de ensino, não dialogam com concepções de criança e de educação infantil presentes nas 17 redes de ensino que participaram do estudo.

“São materiais com uma visão desenvolvimentista, que partem da perspectiva de uma resposta da resposta da criança para o adulto, uma resposta que ela precisa alcançar”, analisa Gabriella, lembrando que esse tipo de material começou a ser comprado de forma mais intensa pelas redes de ensino durante a pandemia de covid-19. “Os bebês, as crianças autistas, entre tantas outras, continuam sendo comercializadas”, denuncia.

A pesquisa-formação

A pesquidadora Tacyana Ramos (UFS) apresentou resultados de uma pesquisa-formação realizada com bebês. Durante cerca de dois anos, foram realizadas gravações em vídeo de atividades com as crianças numa creche, a partir de uma perspectiva relacional, ou seja, considerando as famílias, a professora, auxiliares e as crianças.

“A pesquisa-formação pode contribuir para reconstruir práticas, saberes e fazeres com os bebês”, afirmou Tacyana. E foi o que, de fato, aconteceu. Ao longo do processo, vários atores da comunidade escolar se envolveram nas gravações, o que possibilitou a constituição coletiva de novos olhares para os bebês e, consequentemente, a reconfiguração dos espaços, tempos e práticas.

“A observação, por meio das gravações, gerou possibilidades de análises colaborativas, a partir do que os bebês e as bebês fazem e nos indicam possibilidades de reorganização didática e uma nova configuração didática a partir do olhar da criança”.

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