Nota do GT 11 – Política de Educação Superior analisa documento da Associação Brasileira de Ciências sobre o setor

Crédito Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O GT 11 – Política da Educação Superior da ANPEd divulga nota sobre o documento “Um olhar sobre o ensino superior” da Associação Brasileira de Ciências (ABC), com recomendações, segundo o texto, para modernizar e flexibilizar este nível de ensin0.

Em sete pontos, o GT 11 chama a atenção para as fragilidades do documento, que se pauta por uma leitura recorrente, desde a redemocratização do Brasil, de que o existiria um modelo único e ineficiente de educação superior no país.

Entre os pontos destacados na nota, estão a proposta de criar instituições públicas de educação superior voltadas apenas para o ensino, sem infraestrutura de pesquisa e com processos de formação rápidos, o estabelecimento de metas, além da sugestão de que sejam criados centros de formação nas áreas das ciências exatas e biológicas como estratégia para melhorar a competitividade.

Para o GT 11, além de serem propostas antigas apresentadas como novas, o documento caracteriza-se pela falta de clareza conceitual de algumas definições e desconsidera as desigualdades regionais e aquelas existentes entre as instituições federais de ensino superior e exclui de suas propostas áreas fundamentais, como a formação de professores – o que resulta em uma análise parcial.

Baixe a nota do GT 11 – Política de Educação Superior  ou a leia na íntegra a seguir.

Nota do GT 11 – Política de Educação Superior da ANPEd sobre o documento
“Um olhar sobre o ensino superior no Brasil”, publicado pela Academia Brasileira de Ciências
em novembro de 2024

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) divulga o documento intitulado “Um olhar sobre o ensino superior no Brasil”, que apresenta um conjunto de recomendações para reformar a educação superior pública no Brasil. As premissas que orientam tanto o diagnóstico apresentado sobre esse nível de ensino, bem como as recomendações dele decorrentes, reforçam conhecidas propostas, esboçadas ao menos desde a ditadura cívico-militar e reapresentadas em versões, por vezes com nuances distintas, por todo o período pós-redemocratização. Observe-se, ainda, que essas recomendações vêm revestidas com um verniz de “urgência”, modulando um discurso também antigo que fomenta a falsa ideia de que temos um modelo único (ou “quase único”) de universidade – a de pesquisa – que seria caro, ultrapassado e insuficiente.

Dentre as fragilidades do tipo de diagnóstico apresentado pela ABC neste documento destaca-se:

  1. O documento utiliza-se indistintamente, inclusive em seu título, de expressões como ensino superior e educação superior. Esta expressão, consagrada desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, é mais abrangente que a anterior, em especial por representar as três atividades-fim da universidade: ensino, pesquisa e extensão. A educação nacional se constitui de dois grandes subsistemas: educação básica, composta pela educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio; e a educação superior, com os níveis de graduação e de pós-graduação (este ainda subdivido em stricto e lato sensu) e, dessa forma, por diferentes tipos de instituições.
  2. Secundariza as desigualdades que existem nas próprias universidades e institutos federais (entre áreas, entre regiões, entre unidades acadêmicas, sem falar naquelas que existem entre os sistemas de ensino dos vários estados brasileiros), ainda que se reconheça o problema do “subfinanciamento crônico” das instituições públicas. 
  3. Insiste no discurso de que o “modelo” da universidade que integra ensino, pesquisa e extensão é caro e inadequado, por isso propõe ações com o objetivo de recompor a infraestrutura universitária, condicionadas a contrapartidas (metas, eficiência, flexibilização etc.), modelo já experimentado com o controverso Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). 
  4. Propõe a ampliação do acesso e das oportunidades no “ensino superior” de qualidade atrelado à diversificação da atual estrutura das instituições públicas brasileiras. Por diversificação entende-se a criação de novas instituições de custo mais baixo, sem infraestrutura de pesquisa, com processos de formação mais rápidos e com uso mais intensivo de tecnologias, como aquelas praticadas no ensino a distância (EaD); as recomendações são muito parecidas com aquelas características apontadas no diagnóstico como sendo da educação superior de baixa qualidade (setor privado, sobretudo o com fins lucrativos). 
  5. Recomenda, para as universidades existentes, instituir processo de diversificação interno às instituições com a criação de “Centros de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas”, constituídos, nos termos do documento, “com base em competências, vantagens comparativas e competitivas das áreas e possíveis fragilidades dos ecossistemas impeditivas do desenvolvimento de CT&I”. As áreas consideradas estratégicas seriam: “Bioeconomia; Agricultura e Agronegócio; Transição Energética; Saúde e Bem-Estar; Transformação Digital e Inteligência Artificial; Materiais Avançados e Tecnologias Quânticas”. É, no mínimo, preocupante a ausência de outras áreas cruciais da pesquisa e dos cursos de formação nessas instituições, como, por exemplo, a formação de professores de todos os níveis, da educação básica à superior, além de assumir critérios como “competitividade” e “vantagens comparativas” como pauta para a pesquisa científica e tecnológica. 
  6. Utiliza, o documento, o artifício de fazer menção a outros países como pretensa comprovação de que essas medidas funcionam. Perdem-se de vista, com isso, diferenças e especificidades desses países, em especial de um país como o Brasil, de formação colonial e com padrão reconhecido de dependência econômica e tecnológica em diversas áreas, especificidade que foi tão sentida durante a pandemia da Covid-19, quando então se revelou o quadro dramático do desmonte da nossa capacidade autônoma de pesquisa e desenvolvimento de vacinas, para mencionar apenas um exemplo recente. 
  7. Reforça as desigualdades já existentes, além de desprestigiar, como no caso do Future-se (Projeto de Lei 3.076/2020), as áreas de pesquisa básica, sem apelos comerciais e/ou de inovação, como a proposição dos Centros de Formação, que teriam caráter temporário, vinculados à existência do que o documento denomina de “compromissos de entrega de produtos tecnológicos e pessoal qualificado para desenvolvê-los” e sugerindo um viés “inovacionista”, que poderia forjar novas hierarquias entre as áreas de pesquisa nas universidades. 
  8. Enfatiza propostas de ação que atingiriam as IES públicas, mas que não podem ser levadas a sério, porque, de modo geral, não se fundam em adequados diagnósticos da realidade e seus problemas. Predominam, ao invés de diagnósticos que levantem hipóteses de explicação dos fenômenos observados e ilustrados com dados quantitativos dos Relatórios da Educação Superior, elaborados pelo Inep/MEC, uma apressada descrição e superficial análise da realidade que se propõe a reformar ou modificar. Um exemplo gritante disso é o que tem por objeto a EaD, já hegemônica na educação superior privada e, hoje, de adoção predominante nos cursos das IES particulares ou com fins lucrativos (mais de 80% dos cursos). Como tomar essa modalidade de ensino, sem um efetivo diagnóstico, como paradigma de aperfeiçoamento do conjunto das IES e, em especial, das IES estatais públicas (federais, estaduais e municipais)? 
  9. Inexiste nesse documento da ABC uma adequada e necessária definição de termos sobre os quais se apresentam recomendações. Por exemplo, não se explicita o conceito de qualidade. Que seria a qualidade para as áreas de ensino, pesquisa e extensão tecnológicas? Que seria a qualidade para as áreas de humanidades e de ciências sociais, aplicadas ou não? A se considerarem as propostas, infere-se que, de um modo geral, somente teriam qualidade as áreas de conhecimento que fizessem tanto do ensino como da pesquisa um pilar da economia, para não dizer do mercado; que garantissem retornos monetários para a manutenção das IES. Este princípio, mais ou menos disfarçado no documento, assemelha-se muito a princípios defendidos pelo rejeitado Future-se. Fala-se muito em inovação, sem definição do que se entende por essa, que, no caso da pesquisa tecnológica, tende a se constituir em forma de invenção, rentável a curto prazo para o mercado financeiro, industrial e comercial. Os dois terços das cerca de cinquenta áreas do conhecimento de que se ocupam o ensino, a pesquisa e a extensão, nas IES de educação superior que mereçam o nome, têm outros objetivos muito distintos daqueles das áreas de ensino e pesquisa tecnológicos, dentre os quais se pode destacar a interpretação crítica da realidade, dos modelos de desenvolvimento, das políticas públicas etc. e, assim, fundamentam a ação necessária para a transformação e efetivo desenvolvimento material e humano da sociedade.

Em síntese, uma avaliação desse diagnóstico bastante parcial e das recomendações que dele decorreriam, presentes no documento “Um olhar sobre o ensino superior no Brasil”, exigiria melhor análise dos problemas da educação superior brasileira em suas desigualdades sociais, econômicas e regionais, assim como uma visão crítica e ampla capaz de diagnosticá-lo em seu conjunto e diversidade. Reconhecer que 80% de matrículas estão no setor privado, sendo cerca de dois terços delas em instituições privado-mercantis; que a qualidade desse ensino é questionável, mormente nos cursos a distância, predominantes na educação superior com fins lucrativos, e que, ao contrário, as instituições públicas representam o núcleo forte da produção científica e da formação de qualidade; que, ademais, há um problema de subfinanciamento crônico das instituições públicas, notadamente das federais, e propor recomendações tendentes a desqualificar o setor público da educação superior é no mínimo imoral e fere os princípios do direito de todos à educação, à qualidade do sistema público de ensino, além de adotar postura passiva que favorece os grupos privado-mercantis que se apropriam da educação – bem público –  e a transformam em um negócio rentável, que enriquece seus proprietários e, em especial, acionistas nacionais e transnacionais, no caso dos grupos que, além de fazerem da educação uma mercadoria, abrem seu capital e investem maciçamente no mercado de capitais como empresas comerciais de serviços.

GT 11 – Política da Educação Superior ANPEd

novembro de 2024

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