Nota em resposta do editorial “Passou da hora de cobrar eficiência maior das universidades federais” do jornal O Globo

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O GT 11 – Política da Educação Superior da ANPEd assina, juntamente com diversas associações científicas, uma nota de repúdio ao editorial “Passou da hora de cobrar mais eficiência das universidades federais”, publicado pelo jornal O Globo em 27/05/2025.

Em reposta às críticas do jornal à suposta falta de eficiência do uso de recursos públicos, a nota reafirma o papel central desempenhado por essas instituições na formação qualificada de pessoas e na produção de pesquisa – a despeito do cenário de subfinanciamento ao longo dos últimos anos. Reitera ainda o caráter simplificador e descontextualizado dos argumentos adotados no editorial.

Leia a nota a seguir e baixe o documento.

NOTA EM RESPOSTA AO EDITORIAL “PASSOU DA HORA DE COBRAR EFICIÊNCIA MAIOR DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS” DO JORNAL “O GLOBO”[1]

O editorial publicado pelo jornal “O Globo”, intitulado “Passou da hora de cobrar eficiência maior das universidades federais”, distorce a realidade das instituições federais de ensino superior, projetando ao público uma imagem na qual as demandas candentes de sua comunidade acadêmica por recomposição de seus orçamentos emergem como meras bravatas por “mais dinheiro” sem contrapartida.

O reconhecimento de que essas instituições são as responsáveis “por boa parte da pesquisa realizada”, que contribuem para o “salto na proporção de brasileiros com nível superior” e de que, ademais, fazem isso “com infraestrutura precária” e em quadro “desolador” não são consideradas razões suficientes para que suas demandas sejam atendidas.

O teor do editorial é outro: a existência de problemas tão graves, fruto direto do subfinanciamento acumulado ao longo dos anos, é tornada responsabilidade das próprias instituições e suas/seus servidoras/es. Esse movimento manipulatório tenta fazer parecer que apenas uma diminuta parcela de suas/seus servidoras/es (ditas/os “abnegados”) se compromete efetivamente pelo que é bem-sucedido.

Comparações simplistas entre as universidades federais e universidades internacionais, quase sempre, reduzidas a dados quantitativos, alimentam essa ofensiva do jornal contra a educação superior pública. Não são consideradas as especificidades do país, como suas dimensões territoriais e populacionais, nem menos a história de nosso desenvolvimento social e educacional, tão marcado pela desigualdade. Negando parte fundamental dessa realidade, posições em rankings internacionais como QS World University são apresentadas como o suprassumo da qualidade, além de comparações numéricas simples, como a de comprometimento orçamentário em gastos com pessoal e de custo-aluno em proporção ao PIB per capita, serem mobilizadas em desfavor das universidades federais brasileiras. Assim, o editorial despreza questões elementares, como a de que gastos com pessoal representam a principal e mais importante despesa no setor, e que ensino, pesquisa e extensão são processos complexos cuja avaliação exige muito mais do que meros dados quantitativos e ranqueamentos.

Instituições organizadas pelo princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão tampouco podem ser comparadas diretamente com os demais tipos de organização administrativa e acadêmica. Mas “O Globo” não demonstra qualquer preocupação com isso: exige “produtividade” como uma espécie de fórmula mágica para se contrapor à evidente necessidade de mais investimento público nas universidades federais. Faz evidente opção pelas saídas de “mercado”, como instituir cobrança de mensalidades ou “estreitar laços com o setor privado para prestar serviços”. Com tal visão mercadológica e produtivista a imperar nos argumentos apresentados pelo editorial, revela-se também o alinhamento em favor do ensino privado, sobre o qual dificilmente recaem cobranças de qualidade ou comparações internacionais como critério de “eficiência”.

Em tempo, não se pode deixar de mencionar que a surrada proposição de cobrar mensalidades indica amplo desconhecimento sobre o perfil das/os estudantes das universidades federais, justamente em um momento em que os efeitos das políticas de inclusão, como as cotas, começam a expressar resultados, diversificando o perfil das/os estudantes, tornando as universidades menos elitistas.

O GT11 – Política da Educação Superior da ANPEd e as entidades abaixo assinadas reiteram que o financiamento da educação superior pública não deve ser identificado como mera despesa ou gasto. É um investimento em instituições que compõem o núcleo forte da produção científica e da formação de qualidade no Brasil, tarefa essa realizada quase que exclusivamente pelo setor público. É a forma de preservar o princípio constitucional do direito de todos à educação de qualidade, à formação não concebida como mercadoria ou serviço que se negocia livremente, enfim, é o futuro em jogo.

Assinam a nota:

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação – ANPEd 

Associação Nacional de Política e Administração da Educação – ANPAE

Associação Brasileira de Currículo – ABdC

Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais – Abecs

Associação Brasileira de Ensino de Filosofia – ABEFil

Associação Brasileira de Ensino de História – ABEH

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências – ABRAPEC

Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial – ABPEE

Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação –  ANFOPE

Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia –  ANPOF

Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação – FINEDUCA

Centro de Estudos Educação e Sociedade – CEDES

EMPesquisa/Movimento Nacional em Defesa do Ensino Médio

Fórum Nacional de Diretores de Faculdades, Centros de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras – Forumdir –

Associação Brasileira de Ensino de Biologia – SBEnBIO

[1] Publicado em 27/05/2025, p. 2.

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