A conferência de abertura da 42ª Reunião Nacional da ANPEd & WERA Focal Meeting 2025 trouxe para o debate dois olhares do Sul Global frente ao tema do evento “O neoconservadorismo no mundo e a educação frente às violências sociopolítico-ambientais”, que ocorreu na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), de 26 a 30 de outubro.
As apresentações ficaram a cargo de Liesel Ebersöhn, da Universidade de Pretória, na África do Sul,e presidente da World Education Research Association (WERA) e Rosani Kamury Kaingang, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A coordenação foi da presidenta da ANPEd, Miriam Fábia Alves, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Liesel abriu a conferência enfatizando o quanto o tema é instigante, pois trata de “disrupções, perturbações e reveses”, pois é necessário falar sobre isso. “Como pesquisadora, eu uso a lente da teoria da resiliência. E a resiliência só faz sentido frente às disrupções, aos desafios, senão não precisaríamos ela”, disse.
Tomando como ponto de partida a ideia de que a resiliência é um processo desencadeado por algum tipo de perturbação – mudança climática, guerras ou os desafios para chegar à educação superior ou mesmo as desigualdades sociais, a resiliência abre a possibilidade de resultados positivos num cenário em que são esperados resultados negativos.
“Quando há algum tipo de perturbação, sabemos que isso torna mais difícil a aprendizagem, o ensino e para as pessoas terem uma boa vida. A resiliência funciona como um amortecedor tornando esses resultados negativos mais brandos”.
Assim, no campo da pesquisa em educação, a perspectiva da resiliência possibilita investigar que elementos, dentro das condições possíveis, possibilitam fazer frente a situações e contextos negativos.
Liesel enfatizou que, por ser sul-africana, sua lente como pesquisadora sempre leva em conta o impacto das desigualdades – pois a África do Sul é considerada um dos países mais desiguais do mundo.
Para ela, as desigualdades são uma chave importante para a pesquisa em educação no mundo atual, pois impactam diretamente as condições de vida de estudantes e docentes, impedindo que as pessoas tenham boas condições de vida. Esse cenário é agravado pelas migrações e deslocamentos.
“Essa é uma questão global ou local? Talvez seja o momento de a pesquisa em educação reimaginar o que é a escola e a educação. Mesmo nos territórios mais vulneráveis e desiguais espera-se que exista uma escola. Mas o professor só pode ensinar se a criança vier para a escola. Ele também não consegue ensinar uma criança com fome, angustiadas ou triste”, analisou.
Na perspectiva da resiliência e com base nas evidências disponíveis, Liesel argumenta que, quando as/os/es professoras/es/us percebem que podem contribuir para o bem-estar das crianças com os recursos disponíveis e em parcerias com as instituições e serviços existentes nas comunidades, as condições para a permanência e aprendizagem tornam-se mais favoráveis. Esse modo de atuação, reforça Liesel, exige investimento em formação inicial e continuada.
“Então, a proposta a partir da perspectiva da resiliência, é olhar a escola não apenas como um espaço de ensino e aprendizagem. Diferentemente, as escolas são recursos valiosos, que já estão presentes nos territórios, e que podem ser mobilizadas para promover resultados positivos em cenários desfavoráveis para as crianças”.
Segundo ela, existem escolas comunitárias no Estados Unidos, na África no Sul e no Brasil, entre outros países, que tiveram uma atuação importante nessa direção durante a pandemia de covid-19. Ela encerrou sua fala, convidando as pesquisadoras/es/us a pensarem a educação a partir dessa perspectiva.

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A cosmopedagogia como resistência
Rosani abriu sua fala citando o filósofo, ativista e líder quilombola Nêgo Bispo, que se refere aos povos tradicionais como os “diversais, os cosmológios, os naturais, os orgânicos” em contraponto aos humanistas – pessoas que transformam a natureza em dinheiro.
“As palavras de Nêgo Bispo soam para nós como um chamado e também como uma advertência. Ele nos lembra que o maior problema do mundo moderno talvez não seja a ignorância, mas o medo. O medo do cosmos, o medo da diferença, o medo do outro. O medo daquilo que não cabe na lógica do lucro, da propriedade, do controle”, disse Rosani.
Um medo que se originou com as invasões coloniais e que alimenta, nos dias de hoje, o neoconservadorismo que, para ela, está associado a um projeto de morte, que tenta eliminar do mundo a pluralidade. E, por isso, produz apagamentos e violências.
Em contraponto, reiterou Rosani, as resistências dos povos originários – pela palavra, pela memória e pela luta – colocam-se como as principais armas de luta contra os colonialismos.
“De tempos em tempos, esses projetos mudam de nome: colonialismo, colonialidade, neoliberalismo, capitalismo, neoconservadorismo, neofascismo. Mas seguem a mesma lógica, o mesmo propósito de combater as diferenças, frear os avanços nas conquistas de direitos das minorias, de declarar guerra aos diferentes, aos divergentes dos valores chamados tradicionais”.
Nesse sentido, reitera a professora da UFRGS, o neoconservadorismo é a continuidade do que os povos indígenas já conhecem há mais de cinco séculos de colonialismo pautado na cosmofobia. “A cosmofobia é o medo da nossa liberdade, da nossa espiritualidade, da força da nossa ancestralidade. E foi justificativa para o extermínio de centenas dos nossos povos”, afirmou.
Violência esta que Geni Nuñez, intelectual Guarani, chama de etnogenocídio, e que envolve o extermínio físico, cultural e espiritual de um povo, complementou Rosani: o garimpo, os suicídios de indígenas, a negação do direito à saúde, à educação, entre outros, são formas de permanência do etnogenocídio.
Na mesma direção, enfatizou a pesquisadora, a necropolítica e, principalmente, o racismo, impõem-se, na contemporaneidade, como dispositivo que organiza a sociedade e define quem vai viver e quem vai morrer. “Compreender os colonialismos de longa duração e a branquitude são fundamentais para compreender as bases históricas que sustentam o neoconservadorismo”.
Nesse cenário, a cosmopedagogia, ou seja, a pedagogia dos mundos diversos coloca-se como uma educação capaz de restabelecer “os laços entre saber, ciência, espiritualidade, homem, natureza, céu terra, humanos, não humanos e mais que humanos numa grande ciranda da existência”.
“Somente a educação por meio da cosmopedagogia poderá formar pessoas reconectadas com esse planeta”, defende Rosani. Esta é, na visão dela, a mais profunda revolução possível – uma educação que cura os corpos e a Terra adoecidos e que se mostra capaz de fazer frente à necropolítica e ao neoconservadorismo.
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