5ª ANPEd Norte realiza encontro de grande qualidade em Boa Vista, na UFRR, e consolida fortalecimento da pós a despeito de assimetrias e desafios

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reportagem e fotos: João Marcos Veiga

A Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista, foi a casa da quinta edição da ANPEd Norte, realizada entre os dias 11 e 13 de setembro em Boa Vista. Docentes e discentes do Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará e Tocantins construíram um encontro de grande qualidade e profundidade de debates ao longo de três dias de programação. 

O congresso reafirma um processo de expansão e fortalecimento dos programas da região – única a contar com todos seus PPGEs, 16 ao todo, associados institucionalmente à entidade. Após reunião interna, o FORPREd Norte também anunciou na sessão de encerramento a sede da ANPEd Norte 2026: Porto Velho, Rondônia, garantindo a rotatividade entre os sete estados.

A abertura da ANPEd Norte ocorreu no Centro Amazônica de Fronteira (CAF) à entrada da UFRR, com excelente estrutura com capacidade para mais de mil pessoas sentadas. Logo na porta de acesso, uma impactante obra de arte criada pelo artista Jaider Esbell, com imensas cobras amazônicas, emanava energia positiva ao evento, prestigiado por animadas caravanas das mais diversidades cidades da região. Esbell, falecido em 2021, recebeu da instituição em 2024 o título de doutor Honoris causa, assim como o escritor Davi Copenawa.

Dentre os diversos ônibus e coletivos presentes na abertura, chamava a atenção o animado e uniformizado grupo da UNIR, de Rondônia. A partir de convênio entre a universidade e a Secretaria Municipal de Educação de Porto Velho, 34 discentes e docentes trouxeram suas pesquisas ao encontro. Rafael Fonseca de Castro, coordenador do PPGE da instituição , contou sobre a intensa participação dos rondonenses nas mesas e sessões e considerou “um grande sucesso essa ação”.

Após apresentação cultural da Orquestra do Instituto Boa Vista convidando a cantora Euterpe e ritual de purificação e pajelança, a cerimônia oficial destacou a importância desta realização e a congregação entre os programas de pós-graduação. 

Além de reitores da UFRR e UFPA e organizadores locais, a vice-presidente Norte da ANPEd, Célia Bettiol (UEA), enalteceu a consolidação da reunião de pesquisa científica na região, chegando a sua quinta edição após o desmembramento do EPENN, até então realizado conjuntamente ao Nordeste. Ao final do evento, Bettiol também destacou:“”É um momento de muita alegria, de celebrar as conquistas e desse fortalecimento da pós-graduação. E o resultado foi mostrado aqui nesta maravilhosa quinta ANPEd Norte”.

Aprendizagens e singularidades das fronteiras

A conferência de abertura foi proferida pela professora Wilma Coelho (UFPA), trazendo um panorama dos desafios de compreensão da aprendizagem e singularidades da Amazônia fronteiriça para a construção de políticas públicas, além de deixar as portas abertas da instância na qual está à frente neste momento na Secadi/MEC, a Diretora de Políticas de Educação Étnico-racial Educação Escolar Quilombola. Coelho chamou a atenção para o desafio de se entender o estatuto de identidade dessas cidades amazônicas fronteiriças, a alfabetização dessas áreas e mesmo a baixa produção acadêmica específica sobre ela, algo essencial para a construção de políticas públicas. Lembrando o ativista, professor e escritor piauiense Nego Bispo, a pesquisadora pontuou que “quando compartilhamos o saber, o saber só cresce. Nós e a academia precisamos aprender com todas comunidades e com a ancestralidade”, conclamou.

E ao longo de sua intensa programação, a ANPEd Norte evidenciou a potência deste diálogo entre saberes diversos. Flávio Corsini, coordenador do PPGE da UFRR e coordenador local do evento, diz que ANPEd Norte contou com mais de 400 inscritos circulando pelo campus, com grande participação nos GTs, GEs, sessões, painéis e conferências, debatendo temas importantes e que têm atravessado a Educação fortemente no momento, como militarização, crise climática, violência, financiamento, currículo, BNCC, valorização do magistério e defesa da ciência como instrumento importante de pesquisa e contribuição para a elaboração das políticas públicas. “Então foi muito rico, com debates profundos da questão amazônica, debilidades e dificuldades de acesso e financiamento que a região enfrenta para poder entregar uma educação de qualidade. Mas acreditamos que fechamos a nossa quinta ANPEd Norte com bastante força, num encontro bem organizado e mostrando a luta para que a pós se consolide e se amplie em nossa região”, analisa.

Os presentes na mesa de abertura lembraram de uma época em que era preciso sair do estado e da região para fazer um doutorado em Educação, agora contando com a jovem UFRR, com seus 35 anos de história, no extremo norte do Brasil, além de outros PPGEs nos sete estados no Norte. Bettiol saudou o esforço coletivo daqueles que vieram de diversas formas até ali, de ônibus, barco e avião, o apoio irrestrito da universidade no financiamento do evento e da ANPEd Nacional, incluindo edital de Ação Afirmativa para passagens aéreas e ajuda de custo para estudantes participantes. 

Coordenador do FORPREd Norte, Waldir Abreu (UFPA) lembrou a força da região, responsável por cinco encontros da ANPEd nos últimos cinco anos: três regionais (Rio Branco em 2021, Palmos em 2022 e Roraima em 2024), além de duas nacionais (Belém em 2022 e Manaus em 2023). Dentre os 16 programas da região (sendo 8 doutorados), destaca-se a multiculturalidade e troca com outros países e regiões, mas destacando o desafio da interiorização. Para Abreu, é preciso que as agências de fomento levem em conta os desafios e assimetrias para o financiamento de tais programas e encontros. 

Em participação remota, por estar em agenda internacional da ANPEd nos mesmos dias, a presidenta da ANPEd, Miriam Alves (UFG), expôs a preocupação com as queimadas na região e em todo país, além da importância do evento e compromisso da Associação com a Amazônia e com todas suas lutas. 

Povos indígenas, educação e acessibilidade

A questão indígena e as atividades do Grupo de Estudos específico sobre a temática em interseção com a Educação foi destacada por todos os organizadores. Com apresentações de docentes de aldeias e mesmo oriundos de países fronteiriços e atualmente em PPGEs da região, o grupo teve excelente participação. Após a criação do GE na Reunião Nacional em Manaus em 2023, esta é a segunda regional que também promove o Grupo de Estudo.

Coordenador nacional do GE Educação e Povos Indígenas, Gersem Baniwa (UnB) esteve presente e enalteceu como tal espaço dá visibilidade às pesquisas e consequentemente aos desafios atuais destes povos, sobretudo nas áreas fronteiriças, que passam não só por ameaças ambientais, mas também do narcotráfico. “Essa mobilização de programas, professores e orientandos da pós, com a presença de pesquisadores indígenas faz a diferença, mostra particularidades e diversidades, cria novos espaços e visibilidade. Estudos e pesquisas, sobretudo nessas regiões muito complexas e fronteiriças são fundamentais para produção de dados, conhecimentos e visibilidade para que desafios e problemas sejam conhecidos, auxiliando na formulação e implementação de políticas públicas, que ao fim é a função social da universidade”, pontua.

Aluno do PPGE da UEA, no núcleo Tefé no Amazonas, Vanilson dos Santos Miranha participou ativamente das sessões. O jovem pesquisador saiu de sua aldeia, no Médio Solimões –  geralmente para chegar a Manaus são dois dias de embarcação, mas desta vez ele contou com ajuda da universidade até a capital manauara e outro voo até Boa Vista. “Para a gente que é estudante e pesquisador indígena não é um processo tão simples. Mas vontade de vir compartilhar nossos conhecimentos e também aprender é de grande relevância pra mim e todos nossos parentes lá“, explica.

Vanilson conta que em pleno século 21 ainda existe demanda de acesso muito grande à academia por parte desses povos, além de preconceitos enraizados dentro das instituições. “Mas aos poucos a gente tenta quebrar esses paradigmas. Sou um indígena que teve oportunidade de conhecer pessoas que me deram a mão para que pudesse adentrar nesse espaço. E hoje a minha missão é buscar o máximo de conhecimento e informações, trocar com pessoas diversas para que eu possa também oportunizar meus parentes de outros povos que têm essa vontade, esse anseio de buscar esses conhecimentos para que nós possamos refletir quanto às nossas demandas e também reivindica-las”, expõe o associado da ANPEd. 

O pesquisador apresentou na ANPEd Norte comunicação oral sobre particularidades da educação escolar indígena e seus meios próprios de ensinar, para além das diretrizes oficiais. “Ao relacionar os nossos saberes com o conhecimento científico, a gente realmente pode proporcionar um processo educativo de qualidade dentro dos espaços indígenas”, analisa. 

Sarah Castro também participou pela primeira vez de uma reunião científica da ANPEd, já na condição de associada. A mestranda pela UEA apresentou trabalho no GT Arte, Educação, Linguagens e Tecnologias (24), expondo a pesquisa “Narrativa (auto)biográfica no contexto amazônico: memórias de uma professora surda”. “Me senti prestigiada como toda professora deve ser, independente de qualquer coisa. A educação transforma vidas e promove justiça social. Eu sou prova viva disso e trabalho para que mais pessoas surdas tenham a oportunidade de viver e contar suas histórias”, afirma.

Sarah conta que se surpreendeu muito positivamente com o evento, com a organização destinando atenção especial para a acessibilidade. “Foi uma ótima oportunidade para mim, enquanto mulher surda, ter intérpretes de Libras para me fazer sentir parte de tudo que aconteceu, me senti verdadeiramente incluída. Isso é muito importante para mim e para a comunidade surda da Amazônia! Com certeza que eu irei novamente em 2025 e acredito que muitos outros surdos também irão”, celebra. 

O encerramento da ANPEd Norte 2024, também no Centro Amazônico de Fronteira, contou apresentação cultural do grupo indígena Kapói, com direito a uma grande confraternização no palco com os participantes do evento presentes. A conferência foi proferida pelo professor doutor chileno Maxim Carreno. O docente da UFRR abordou questões relacionadas à diversidade humana na Amazônia, atualmente com cerca de 300 povos originários e 1,6 milhão de pessoas que se declaram indígenas – 60% fora das terras indígenas. Ao longo dos três dias, o evento em Boa Vista mostrou a força, desafios e potencial dessa multiculturalidade para a Educação brasileira.  

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