Carta aberta contra a censura na literatura infantil e juvenil | ANPOLL

O Grupo de Trabalho (GT) Leitura e Literatura Infantil e Juvenil, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística (ANPOLL), manifesta  oposição à censura a obras literárias infantis e juvenis em suas várias vertentes.

Como professores e pesquisadores do tema, entendemos que o debate, a discussão, o diálogo sobre a literatura, com destaque para os livros explorados em ambiente escolar, devem prevalecer na relação das instituições com a comunidade. Justamente pela busca desse elemento basilar do trato democrático, as abordagens de obras literárias, dentro e fora da escola, não podem se resumir a fenômenos contemporâneos popularmente conhecidos como “lacração” ou “cancelamento”. 

Falas fora de lugar e condenações insustentáveis a autores e obras apequenam o debate, bem como as supostas causas defendidas por seus divulgadores. O lugar da cultura é, por excelência, o da alteridade, que se estabelece com mais pertinência quando, levando em conta todos os membros das diversas comunidades, acrescentamos na equação social o conhecimento legítimo sobre o objeto discutido. 

Desconfie quando, muito rapidamente, alguém aparecer nas mídias sociais atacando este ou aquele livro. 

Desconfie porque a natureza e a qualidade  do objeto literário são desprezadas inúmeras vezes, o que invalida a própria discussão. A leitura literária ocorre em uma relação criativa com o leitor, sendo este um sujeito do processo, não simplesmente um receptáculo a ser contaminado por esta ou aquela ideia. Desconfie, porque a literatura está sendo usada como pretexto para outras questões, possivelmente contrárias à própria ideia de democratização da leitura.

A ideia de literatura propagada pelos algozes dos livros, como se deduz facilmente, é também uma deturpação do objeto em si. Ao optar pelo ataque, pela controvérsia exagerada, pelo palco à luz dos holofotes da mídia, também se faz uma opção pelo desrespeito ao conhecimento formal, à escola como espaço de construção de ideias críticas sobre o mundo, aos espaços de cultura como locais de encontro, descoberta e crescimento, o que implica no cancelamento da permeabilidade às diferenças e ao diálogo.

Quem se interessa pela cultura não mutila, não proíbe, tampouco queima livros.

Cornélio Procópio-PR/Assis-SP, 08 de março de 2024.

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