Para pesquisadora, escola tem “função inegociável” na prevenção e enfrentamento das violências contra as mulheres

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O 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, é uma data de reconhecimento dos avanços conquistados pelas mulheres. Mas é também uma data para dar visibilidade aos inúmeros desafios que permeiam a existência das mulheres.

No Brasil, a violência contra as mulheres está na ordem do dia. A despeito de marcos legais como a Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, e da Lei do Feminicídio que, a partir de 2015, passou a considerar crime hediondo o assassinato de mulheres, as estatísticas revelam um cenário de intensa violência contra as mulheres.

O Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), computou 2.149 assassinatos de mulheres no ano, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país.

Já o Atlas da Violência 2024, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, informa que as meninas de até 14 anos são vítimas mais frequentes da violência sexual na comparação com mulheres adultas. O estudo mostra que, em 2022, 30,4% das meninas de 0 a 9 anos sofreram violência sexual. Na faixa etária de 10 a 14 anos, são 49,6%.

Esse é o pano de fundo que ajuda a contextualizar o caso da adolescente de 17 anos do Rio de Janeiro, vítima de um estupro coletivo. Segundo relatos à política, a jovem recebeu mensagem de um adolescente que estudava na mesma escola com ela, convidando-a para ir à casa de um amigo, onde foi violentada. Além do adolescente, quatro homens adultos participaram.

Para a pesquisadora Dayana Brunetto (UFPR), integrante do Comitê Científico GT 23 da ANPEd, o caso da adolescente do Rio de Janeiro, pode ser entendido à luz de um movimento de potencialização do machismo e da misoginia, associado à onda conservadora no Brasil e no mundo. Nesse contexto, defende a pesquisadora, a escola desempenha uma função social inegociável na prevenção e enfrentamento dessas violências, num trabalho pedagógico que envolve toda a comunidade escolar. Leia mais, a seguir:

Como você vê o atual cenário com tantas denúncias de violência contra a mulher?

Dayana  Brunetto – As violências contra as meninas e mulheres são uma questão social e coletiva que não é nova. As denúncias têm sido mais divulgadas e, com as mídias sociais, o acesso a essas informações se popularizou – ainda que saibamos que os dados são subnotificados.

As violências contra as meninas e mulheres fazem parte de uma cultura misógina que se aprende nas infâncias e que é reiterada constantemente nas adolescências e na idade adulta, em diversas instituições e meios sociais. Por isso, não é exatamente uma surpresa ter adolescentes e jovens entre agressores.

O caso recente do estupro coletivo no Rio de Janeiro revisita outros, mais antigos, como o da adolescente que foi estuprada por cerca de 30 homens em 2016, também no Rio de Janeiro, e casos recentes, como o de duas meninas de 12 anos que foram estupradas após encontrarem um jovem que conheceram pela internet em março, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Estes, e outros casos, trazem em comum um desprezo, um asco, a desumanização e coisificação dessas adolescentes. Por não serem consideradas humanas por seus agressores, elas estariam subjugadas a eles, que se sentem autorizados a fazer o que quisessem com elas. É uma concepção que sustenta e faz funcionar uma atitude de ódio às mulheridades. Ou seja, a todas as meninas e mulheres. É a materialização da misoginia. Os casos trazem também uma certa segurança para os agressores que contam com a impunidade.

Existem particularidades neste caso recente do Rio? O que ele diz sobre a violência contra a mulher, em especial adolescentes?

Dayana Brunetto – O caso recente do Rio de Janeiro não é isolado. Faz parte de um movimento de potencialização do machismo e da misoginia, que acompanha a difusão da onda conservadora espalhada pelo mundo nas últimas décadas.

No entanto, o Brasil está vivenciando um recorde de denúncias e de dados que demonstram o que se poderia chamar de uma epidemia de violências contra as meninas e mulheres. O caso teve visibilidade devido à atenção do poder público, à luta dos movimentos sociais feministas, a organização e posicionamento ético das pesquisadoras feministas e à indignação popular frente a decisão judicial recente, de um desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que absolve um homem de 35 anos de idade que manteve relações sexuais com uma menina de 12 anos, afirmando que existia um “vínculo afetivo consensual”.

Esta decisão não só viola as leis. Ela banaliza e relativiza o estupro desta menina e acena mais uma vez com a possibilidade da impunidade ao agressor. No entanto, o mesmo desembargador é investigado por denúncias de violência sexual. E este é um caso que nos chegou. Quantos outros não chegam?

Esta epidemia envolve inclusive uma massiva ação coordenada de aliciamento de meninos para a realização de tais atos. A cultura incell, importada dos Estados Unidos, e espalhada pelo mundo todo, “ensina” que se adolescentes, jovens e homens adultos não mantêm relações sexuais, se deve ao fato de que as meninas e mulheres os consideram menos interessantes do que outros. Esta compreensão culpabiliza as adolescentes, jovens e mulheres por isso e autoriza a retomada desse “direito” à força. Ou seja, incentiva e orienta sobre como realizar estupros.

Na potencialização destas atitudes, estão os feminicídios, lesbocídios e transfeminicídios. Meninas, jovens e mulheres sobreviventes destas violências são profundamente abaladas e têm suas vidas   sociais suicidadas. Nenhuma delas passa ilesa por esses processos. Em pesquisa em andamento no mestrado em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob minha orientação, a pesquisadora investiga sobre a machosfera, cultura incell, Red pill e outras comunidades masculinistas que vem crescendo nos últimos anos, inclusive através de monetização das plataformas que tem pouco, ou nenhum, controle em relação a idade de quem as acessa.

Os discursos veiculados no YouTube, em podcasts e outras redes defendem a superioridade masculina e estabelecem padrões de feminilidade que subalternizam as meninas, jovens e mulheres. E este discurso está nas escolas (Dayana Brunetto; Carolina Burda Fernandes, 2025)[1].

Entretanto, o recente caso do Rio de Janeiro demonstra uma singularidade, que consiste na mobilização das famílias de estudantes de três escolas do Rio de Janeiro na organização de abaixo-assinados para a ampliação do debate e do trabalho pedagógico com as questões de igualdade de gênero e de enfrentamento e prevenção às violências. Isto representa uma movimentação importante no sentido de ampliar o debate sobre a necessidade urgente de transformar a sociedade brasileira, nos espaços privados e públicos, em especial nas instituições, dentre as quais a escola e as universidades, em lugares seguros e livre de violências contra meninas, jovens e mulheres.

O caso do Rio envolveu uma escola pública tradicional. Como você vê a exposição da escola numa situação como essa? O que uma escola pode fazer preventivamente e após um caso como este?

Dayana  Brunetto – As escolas, públicas e privadas, têm uma função social inegociável em relação à prevenção e ao enfrentamento das violências contra meninas e mulheres. A exposição da escola demonstra que instituições educacionais não são ilhas. Por isso mesmo as violências contra as meninas e as mulheres também envolvem integrantes das comunidades escolares e universitárias.

Dentre outras questões, as escolas precisam atuar para prevenir as violências de gênero, contra meninas e mulheres, por meio do trabalho pedagógico com as questões de gênero e sexualidade, numa perspectiva de promoção e defesa dos direitos das meninas e mulheres. Este trabalho precisa envolver toda a escola, uma vez que, na sua imensa maioria, são meninos, jovens e homens adultos que praticam esses atos violentos, além de ser um trabalho interseccional em relação aos marcadores sociais de raça/cor, deficiência, idade e territorialidade, por exemplo.

Também não é preciso esperar que um caso como esse do Rio de Janeiro aconteça para iniciar o trabalho. As ações precisam ser permanentes, durante todo o ano escolar/acadêmico, considerando que meninas e mulheres são agredidas todos os dias.

As professoras e professores que desenvolvem pesquisas e trabalhos formativos em escolas e universidades têm sido alvo da onda conservadora mundial. Não por acaso a escola, as universidades e a democracia estão sob ataque e no centro das disputas. As principais críticas, desprovidas de relação com a realidade, desqualificam os estudos, pesquisas e trabalhos pedagógicos e educativos que relacionam gênero, feminismos, sexualidade e educação. Projetos como Escola sem Partido e a disseminação do factóide “ideologia de gênero” incentivaram e ainda fomentam a perseguição de pesquisadoras/es e docentes.

É interessante pensar a quem serve retirar ou “proibir” as discussões de gênero e sexualidade nas escolas, sob um argumento insustentável de “defesa das nossas crianças e das famílias em nome de Deus”. O grupo beneficiado com esta interdição nas escolas é o de agressores, estupradores e feminicídas, uma vez que a escola pode ser o único lugar ao qual uma vítima de violências de gênero pode recorrer[2].

Você enxerga similaridades entre este caso do Rio e os ataques violentos contra escolas?
Parece que existe um modo de operação semelhante – planejamento, articulação, exposição da vítima, chantagem. É um pouco também a dinâmica do bullying. Faz sentido?

As violências contra meninas e mulheres fazem parte de uma cultura mais ampla de violências, que sim têm relação com as violências contra animais, com os ataques às escolas, com violências contra pessoas que vivem em situação de rua, contra profissionais do sexo, pessoas com deficiência, pessoas negras e indígenas, dentre outras. Isto se dá porque para os agressores todos esses são inumanos e merecem o desprezo total, podendo ser agredidos, humilhados, aniquilados e descartados, sem maiores questionamentos.

Há sim um procedimento articulado com diversas etapas. As violências entre adolescentes em especial, muitas vezes denominadas de bullying, que é outra noção importada dos Estados Unidos e não dá conta das experiências brasileiras, são materializadas por práticas de violências específicas e recorrentes, sendo o aliciamento e o planejamento coletivo, muitas vezes realizado em fóruns da internet, um elemento importante.

Quando precisamos adjetivar a palavra  bullying me parece que ela mascara as violências do machismo e da misoginia, por exemplo, ao ser intitulada como bullying de gênero. É importante olhar para as questões brasileiras, que são muitas, a partir de elaborações teóricas brasileiras também. Ou seja,  bullying é violência!

Que outros desdobramentos você percebe?
Dayana Brunetto – As violências de gênero nas escolas, e nas universidades nas quais ainda se trabalha em busca de acesso e permanência, produzem também condições desiguais de oportunidade de aprendizagem entre meninas e mulheres e meninos e homens, por exemplo. Tanto a adolescente de 17 anos quanto a de 16 e as de 12 anos, caso consigam se recuperar e seguir em frente com os estudos não terão nas escolas e nas universidades as mesmas condições de aprendizagem.

Enquanto outros estudantes têm a possibilidade de concentrar toda a atenção nos conteúdos explicados, o que não quer dizer que o façam, a essas meninas não é dada esta oportunidade. Elas precisarão dividir a concentração entre o conteúdo e as próximas violências e assédios aos quais estarão expostas.

Ou seja, não existem condições equitativas de aprendizagem entre todas as estudantes e os estudantes das escolas e universidades[3]. Potencializar a trabalho pedagógico e a realização de pesquisa na área, bem como ampliar e fomentar esses trabalhos nas escolas e universidades é uma medida urgente para contribuir na prevenção e no enfrentamento das violências de gênero contra meninas e mulheres. A educação precisa ter essa como uma tarefa inegociável e permanente!

A definição recente do governo federal em reconhecer e fomentar o trabalho com as questões de gênero nas escolas é uma iniciativa importante e que evidencia o que muitas pesquisadoras e pesquisadores, dentre as/os quais os que compõem o GT 23 – Gênero, Sexualidade e Educação da ANPEd, em conjunto com os movimentos sociais feministas: o debate das questões de gênero e sexualidade nas escolas é imprescindível para se construir uma sociedade menos machista e misógina.

É este o trabalho que previne, protege, informa e empodera meninas e mulheres! Por mais Discussões de gênero nas escolas e universidades! É pela vida das meninas e mulheres!

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[1]     Subjetividades masculinas e misoginia: uma análise da série adolescência” na VI Jornadas do LEGH: Misoginia ontem e hoje: entre ameaças e resistências evento promovido pelo Laboratório de Estudos de Gênero e História da Universidade Federal de Santa Catarina 29 a 31/10/2025.

[2]       Brunetto, Dayana; Sartori, T. L. Neoconservadorismo e ?Ideologia de Gênero?: O Favorecimento do Estuprador.    Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, v. 6, p. 195-219, 2023.

[3] Brunetto, Dayana; Ribas, Léo; Maraux, A.; Paiva, Zuleide . Educação e Violências na Escola: por uma experiência de acesso, permanência e condições equitativas de aprendizagem.. In: Elenita Pinheiro de Queiroz Silva; Paula Regina Costa Ribeiro; Teresa Vilaça; Vilma Nonato de Brício.. (Org.). Corpo, gênero e sexualidade: Memórias, lutas e insurgências nas educações. 1ed. Campina Grande: Realize, 2023, v. 8, p. 238-261.

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