Política de cortes de Trump fecha projeto de educação e sustentabilidade que tem participação da ANPEd

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Os cortes de projetos de pesquisa “não alinhados com as prioridades” da administração Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, levaram à interrupção de um iniciativa da qual a ANPEd participa:  o projeto Global Futures Oriented Research Collective on Education for Sustainability (G-FORCES), ligado ao Mary Lou Fulton College for Teaching and Learning Innovation, a faculdade  de educação  da Universidade do Estado do Arizona (ASU em inglês).

Em 18 de abril foi anunciado o corte de financiamento de centenas de projetos de pesquisa financiados pela National Science Foundation (NSF), seguindo ordem do Departamento de Eficiência Governamental, dirigido pelo bilionário Elon Musk.

O pesquisador Gustavo Fischman, um dos coordenadores do G-FORCES afirma que, com o corte, o projeto é obrigado a fechar. “Não podemos realizar nenhuma outra atividade, além do relatório final”, conta. “Essa decisão faz parte de um quadro mais amplo. A NSF cancelou projetos em todas as disciplinas em uma ‘revisão padrão’ muito geral e pouco transparente”, detalha Fischman, referindo-se a uma reportagem sobre o assunto publicada na revista Nature.

Por isso, uma reunião para avançar na fase final do projeto foi cancelada. Participariam da reunião pesquisadores de todas as dez redes envolvidas no projeto, inclusive a presidenta da ANPEd, Miriam Fábia Alves, e vice-presidente da World Education Research Association (WERA), Geovana Lunardi. Além da reunião do G-FORCES, elas participariam da reunião anual da AERA (American Educational Research Association), em Denver, de 23 a 27 de abril.

Com o corte do financiamento do G-FORCES, a viagem de Miriam foi inviabilizada. Geovana viajou para os Estados Unidos, mas somente para participar da reunião da AERA

O projeto G-FORCES (Pesquisa Orientada para Futuros Globais dos Educação para a Sustentabilidade, em português) reúne cerca de 50 pesquisadores vinculados a dez redes de pesquisa dos Estados Unidos e outros países. O objetivo é gerar e mobilizar conhecimentos para ações transformadoras no campo da educação em projetos de largo alcance e para a sustentabilidade planetária.

“É uma situação muito grave contra a qual expressamos nosso repúdio. Independentemente de nossa situação particular, é um ataque que impacta e interrompe toda uma construção de pesquisa, de produção de conhecimento, que envolve colegas de vários países”, afirma Miriam.

Para Geovana o caso é remete a práticas ditatoriais. “A situação das universidades nos Estados Unidos é lamentável. É um totalitarismo pesado, que não enfrentamos nem de perto durante o governo Bolsonaro”, analisa. “O G-FORCES trabalha com educação, emergência climática e diversidade, temas que estão sob ataque”.

O cenário, segundo Fischman, é de instabilidade, ansiedade e medo. “As pesquisas científicas prosperam quando existe espaço para dúvidas, nos processos abertos de questionamento e na problematização sistemática, respeitosa e contínua dos resultados já conhecidos. Quando os governos reprimem a possibilidade da dúvida nas pesquisas com ameaças concretas de fechar centros, cancelamento de autorizações para que universidades funcionem e utilizam as grandes plataforma de disseminação de informação que dispõem, geram incertezas, ansiedade e medo”, analisa o pesquisador.

Com isso, muitos cientistas acabam se sentindo desencorajados a pensar em projetos e experimentos que têm potencial para desafiar as interpretações dominantes. “Incertezas, ansiedade e medo minam a epistemologia central da pesquisa cientifica”.

Segundo ele, a atual administração está efetivando políticas autoritárias enraizadas no  desejo de controle a traves da censura e hábitos antirreflexivos. Fischman acredita que para confrontar essa dinâmica é preciso mais do que defender a ciência de fora: “Exige uma reimaginação de como as próprias organizações valorizam, processam e agem com base no conhecimento. Em tempos de incerteza, o caminho a seguir não está em silenciar a ciência, mas em ouvi-la – de forma crítica, aberta e com a humildade que ela exige”.

Com relação ao futuro do G-FORCES, a intenção é continuar, embora os meios para viabilizá-la ainda não estejam claros. “A nossa intenção é continuar. Este momento nos desafia a pensar de forma criativa, crítica e coletiva sobre como continuamos esse trabalho – em nossos próprios termos, com ou sem financiamento do governo federal”, conclui.

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